Ciência e Sacralidade unidas: eis o futuro
“A montagem da paisagem do conhecimento tradicional e as plantas medicinais da Amazônia.”
Assim é intitulado um dos trabalhos de maior reconhecimento internacional quando o tema é Amazônia. Tem como singularidade resgatar e organizar o conhecimento tradicional da medicina da maior floresta tropical do planeta. Este saber é transmitido de geração para geração, num mundo habitado por curandeiros, benzedores, caboclos, índios, tuchauas e xamãs. Entenda sacralidade como contemplação, respeito e admiração. Não tem nada a ver com religião. Estamos falando de um valor universal e ecumênico.
Sagrado e ciência de mãos dadas
O idealizador e coordenador do projeto é Moacir Tadeu Biondo, renomado especialista de plantas medicinais do bioma amazônico. “Sou um pesquisador autodidata”, assim Biondo se autointitula de um jeito muito simples de ser. Atualmente trabalha como técnico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas.
Guardiões da floresta detêm conhecimentos milenares
Sua função é justamente fazer a ponte entre o mundo científico acadêmico com a medicina tradicional amazônica.
Suas aulas são nas tribos. Leva os alunos para oficinas práticas. Lá os estudantes conhecem os tais personagens que detêm um dos conhecimentos mais preciosos do mundo contemporâneo.
Um novo sentido de valor
Revelar que o óleo do urucum, por exemplo, é um filtro solar natural representa um atalho de anos e anos de pesquisas para as indústrias farmacêuticas. Mas para os povos amazônicos este conhecimento não tem valor monetário. Pertence à humanidade, porém, podemos ilustrar a relação de valores que movimentam o mundo atual. Mas o despertar do sentido de valor e a preservação deste patrimônio integram o projeto de Moacir Biondo. Ele alerta as comunidades a respeito da riqueza que temos, evitando que valores sejam transferidos para outros continentes.
Intercâmbio Campinas-Amazônia
Moacir Biondo esteve em Campinas no domingo de Páscoa, dia 24 de abril, para ministrar uma oficina a céu aberto na Estação Semear, projeto de iniciativa da Unidade Beneficente Estrela da Manhã e Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico, numa área pública no Jardim Carlos Gomes. Este projeto conta com apoio da Prefeitura Municipal de Campinas.
Redes de educação ambiental
Assim as redes científicas e educacionais são estabelecidas entre um dos maiores pólos tecnológicos do país e o conhecimento de raiz amazônica. O que mais chamou a atenção na oficina é a simplicidade e o nível de profundidade com que os ensinos são transmitidos. Num simples passeio na área da Estação Semear eram revelados o poder de cura de plantas que passam depercebidas pela maioria das pessoas.
Reflexão pertinente
Todas as plantas, aparentemente sem importância, passam a ser reconhecidas dentro de uma visão que interliga a saúde ao valor da sacralidade. “Esta é a cultura essencial do Brasil caboclo brasileiro”, confirma Biondio
Este tema nos remete a profundas reflexões revelando, inclusive, a dinâmica da ordem econômica mundial. Existe um fio condutor da casa do caboclo, do seringueiro e do índio com o sistema monetário internacional. Os princípios ativos são tesouros dos mercados do futuro. Mas é o mergulho na cultura essencial do caboclo que nos interessa neste momento.

Plantas e frutas brasileiras são os verdadeiros tesouros da nação, pouco valorizados pelos próprios brasileiros
Conhecimento como fio condutor
A medicina doméstica revela o valor de algumas plantas preciosas, que servem para produzir chás e medicamentos para atender crianças e adultos na luta pela sobrevivência no maior celeiro da biodiversidade do planeta.
‘Nossa proposta também é trazer este conhecimento para Campinas, primeiramente para a comunidade do Bairro Carlos Gomes”, confirma o coordenador do projeto, o educador e ambientalista Reinaldo Osmar Pereira.
Ecodesign: este é o futuro
Este mergulho passa pela consideração do ambiente onde as plantas são encontradas. A relação de sacralidade que as florestas inspiram aos seus habitantes também pode ser analisada como um valor que motiva a preservação. O diálogo da sacralidade permite um diálogo simbólico, onde as plantas são tidas como espíritos com força de cura. Esta observação não contradiz princípios religiosos de nenhuma crença e nem é uma afronta à ciência acadêmica. Estamos falando de um mundo arquetípico de deuses, seres da floresta, cultos e rituais de organização de uma nova ordem que está se desenhando em paisagens de hamonia entre ciência e espiritualidade.

Raul Monteiro, engenheiro agronomo com a sua filhinha Maria e amigo Antônio, sósia de Gandi na oficina de plantas medicinais
“Vamos trabalhar com referências da agrofloresta, permacultura e ecodesign. Este é o futuro”, anuncia o agrônomo especializado em agrofloresta e coordenador técnico da Estação Semear, Raul Monteiro.



















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